Dramatis persona

Eu não me lembro do casting, tampouco das cenas do primeiro ato. O diretor, se é que há um, apenas me jogou nu no palco e sem cópia do roteiro, condição que me intriga mas que tem lá suas vantagens. Assim começou essa obra do improviso que segue em cartaz há anos.

Meu personagem não é de todo ruim. Na verdade, se dá muito melhor que a maioria. Há fases em que cai numa monotonia irritante. Às vezes tem de interpretar cenas angustiantes, daquelas de fazer questionar a razão de estar no palco. Mas assim que tudo se coloca em perspectiva, olhando ao redor, é fácil ver figurantes cujas condições são bem menos favoráveis. Imobilizados no canto do cenário, ali eles seguem firme sem demonstrar esperança de um dia ocupar melhores posições na obra.

Diferentes são meus papéis, que variam conforme os coadjuvantes em cena. Esse teatro do absurdo varia de plateia, que por vezes se agrada, outras não. Tem aqueles que ocupam o primeiro lugar da fila, outros preferem ficar mais atrás nas fileiras. Estes têm um comportamento inconstante. Depende da temporada. Às vezes até se arriscam a puxar uma cadeira para a frente, ficam lá por várias e várias cenas, de repente somem e não se tem notícias do porquê de terem se omitido por tanto tempo. Confesso felicidade quando, depois de um sumiço, vejo o rosto de um deles ao fundo num retorno surpresa.

Tem muita gente que se envolve com a peça, galgando para si uma ocupação na equipe de produção. É normal encontrar uma delas continuamente no abrir e fechar das cortinas, sugerindo alterações na próxima cena. Querem mover seu lugar no palco. Querem modificar seu personagem. Por vezes, o fazem muito bem, de maneira a convencer. Se há medo do que o diretor pode fazer se eu fugir do roteiro esperado, também é verdade que eu nunca o vi. Deixam seus recados afixados nos bastidores, prescrevendo punições para quem ousar cenas desprovidas de seu conceito. A tentação de se desviar é contínua, tal como ceder a ela. Se ele não quer interromper o ato, ou nem mesmo vê o que acontece, não se sabe. Mas num palco em que o diretor não existe, tudo é permitido. Não se torna alívio, apenas amargo reconhecimento de um fato.

Ocupo meu tempo no palco em busca de um sentido para cada cena. A verdade é que eu não faço ideia do que estou fazendo por aqui, mas me contenta entreter o público. Se arranco risadas ou se faço chorar, qualquer demonstração de que minha interpretação não é monótona ou despercebida preenche-me do estímulo que me mantém criativo; potência de agir que move corpo e mente em busca da próxima reviravolta no enredo.

Muda o cenário, muda a plateia. Se atuo bem ou mal, se improviso no roteiro, nada importa. Fato é que estou condicionado neste palco, no qual pavoneio aflito sem previsão do ato final. Este espetáculo pressupõe essencialmente a minha revolta, objetivo para o qual me volto cegamente para me tornar um kantiano escravo da própria liberdade. O resultado é som e fúria sem significado algum.

Trágico ou cômico seja o desenrolar da história, é preciso imaginar o ator feliz.

 

 

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