Feed the pigeons

Lá estava eu, encarando o pombo.

Sua aparência não era das melhores. No mundo em que vivia, era possível notar o descaso e o desafeto daqueles que o rodeavam. Vivia sendo espantado. Muitos, por não saberem conviver com sua existência, prefeririam extinguí-lo a aceitá-lo. Um animal, nem um pouco bem visto, vítima daqueles que pouco sabem sobre sua origem. Sobre como ele foi parar ali. Sobre as dificuldades de sua existência e de ser pombo num mundo de homens.

Conviver com os pombos não é algo recente. Ao que consigo calcular, faço isso desde aproximadamente meus 5 ou 6 anos de idade. Ainda criança, na cidade de Limeira, meu avô Carlos (in memoriam) me levava para passear na Praça Toledo de Barros, onde ele comprava um daqueles canudos de papel com amendoins torrados e me entregava. Eu via os pombos se aglomerarem ao meu redor, e minha diversão era atirar os amendoins entre os paralelepípedos para vê-los comendo. Alimentar os pombos era mais divertido do que alimentar a mim mesmo.

A minha primeira relação com os pombos era de simpatia. Eu gostava deles, e me sentia bem enquanto distribuía meus amendoins e percebia que estava fazendo-os mais felizes.

Pouco depois que passei da fase dos 6 anos, o processo de educação social começou a ser aplicado com mais rigor em mim. Fosse sobre como me comportar à mesa, fosse sobre respeitar os mais velhos, coisas que faziam sentido ou não mas, a partir daquela fase, eu, ainda criança, comecei a receber uma série de ensinamentos que diziam respeito a como eu deveria ser e me comportar diante dos outros que me cercavam, o que incluía informações acerca do que eu deveria gostar ou não. Era a transmissão de uma série de julgamentos, estes tão naturalmente difundidos pela sociedade, transmitidos de geração em geração por pais que acreditam estar fazendo o melhor para seus filhos.

Dentro deste processo, em algum dia, em algum momento, alguém me disse que eu não deveria gostar dos pombos. Que o pombo era um bicho nojento. Um rato com asas. Aparentemente, eu estava proibido de gostar dos pombos. E, como uma boa criança que ainda desconhece o mundo e acredita naqueles que vivem nele há mais tempo, comecei a julgar os pombos. A reparar que eles eram esquisitos, a achá-los feios. Um bicho cujas penas são cor de chorume, uma mescla de cinza escuro, verde metálico e roxo não poderia ser boa coisa. A partir dali, cresci com desgosto por aquelas criaturas pela quais outrora tive simpatia e passei a encará-las com outros olhos.

Mais adiante nos aprendizados da vida, um professor de história me contou que os pombos foram trazidos da Europa por nossos colonizadores, em uma tentativa de “europeizar” um pouco os trópicos. Já adulto, tive a oportunidade de conhecer o continente europeu, e entre tantas viagens a diversos países, me chamou atenção o fato de os pombos estarem presentes em todos os lugares. Um de meus hobbies passou a ser fotografá-los, na maioria das vezes com um interesse particular: os mortos. Atropelados, envenenados, ou até sendo presa de algum outro animal. Esse foi o meu passatempo mórbido por algum tempo.

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Até que um dia minhas viagens me lavaram à cidade de Marseille, no sul da França. Foi lá que a história principal que motiva este texto aconteceu. Eu estava viajando na companhia de um amigo da faculdade que foi até a Europa me visitar e estávamos fazendo um roteiro. Na busca por alguém que pudesse nos hospedar em Marseille, acabamos conhecendo várias pessoas, e em uma noite estávamos todos em um bar muito legal conversando e trocando experiências. Por volta da meia-noite, como tudo de costume na França, o bar fechou.

A Sihame é uma das pessoas que conhecemos. Marroquina e extremamente simpática, ela nos acompanhou em muitos dos roteiros que fizemos pela cidade. Quando o bar fechou, animada, ela nos sugeriu que continuássemos a noite em busca de outro local. Tudo estava fechado, então começamos a vagar pelas ruas pedindo por indicações. No meio desta busca nos deparamos com um bando de pessoas que bebia e cantava em uma esquina.

Era um bando eclético. Homens e mulheres, jovens e velhos. De comum entre eles, só a alegria. Um tocava acordeão, outro uma flauta, outro um violão. A Sihame perguntou a eles aonde poderíamos ir para continuar a noite e a resposta foi: “venham com a gente!”. Naturalmente, perguntamos aonde eles estavam indo, e eles disseram que iriam fazer uma festa em um squat. Eu não sabia o que era um squat, então me explicaram. Um squat é uma ocupação de um espaço ou prédio abandonado, que não pertence ao indivíduo que o ocupa, nem é por ele alugado e ao qual não é dado a permissão de usá-lo. Os squats fazem parte de um movimento que surgiu na década de 60 com a crise da moradia, e que possuíam um significado político muito forte.

Quando nos foi dada a explicação do que era um squat, eu e meu amigo nos entreolhamos. “Isso pode ser uma experiência incrível ou uma grande cilada”, disse a ele. Enquanto pensávamos sobre o que fazer, o bando começou a se mover. “Vocês não vêm?”. Dissemos que estávamos pensando, e eles responderam: “Não pensa, só vai!”. E nós fomos.

No meio do caminho, uma parada em uma lojinha de bebidas. Cada um comprou aquilo que pretendia beber, e aí então continuamos a caminhada rumo ao squat. Chegamos lá, um prédio abandonado. Um deles sacou uma chave e abriu a porta. Ao entrar, era possível ver móveis quebrados, bicicletas largadas, cones, placas de rua e um acesso para uma escada. Todos começaram a subir.

Após cinco lances de escadas, chegamos ao último andar do prédio. Havia música, pessoas ao redor de uma mesa conversando, bebendo, fumando e jogando baralho. Pessoas de todos os tipos: artistas, músicos, mendigos, moradores de rua, todos juntos em um mesmo prédio, cujas paredes eram pintadas e grafitadas, em um grande espírito de comunidade. Todos nos saudaram, tendo sido minha mão estendida ignorada e substituída por abraços e sorrisos. Era como se eu fosse há muito tempo amigo de cada um deles. Todos queriam saber quem eu era, como eu estava, e qual era a minha história.

As cervejas que eu levei acabaram, e logo me deram um copo, dividindo aquelas que ainda sobravam. Fiquei sem graça. Eu não tinha dividido a minha com ninguém. Nem por isso fui julgado, afinal era nítida a minha ignorância em relação a como eu deveria me comportar naquele local, com aquelas pessoas. Eu era um estrangeiro perdido, ao qual eles olhavam com bastante simpatia, talvez pela minha disposição em estar socializando com todos eles, contando um pouco da minha história e de como eu fui parar ali.

Lá estava eu.

A cada olhar que eu lançava para cada uma das pessoas que ali estavam, eu me pegava pensando no meu próprio preconceito e desafiando as minhas próprias convicções sobre o funcionamento da sociedade. Era interessante notar como a aparência excêntrica daquelas pessoas seria facilmente um motivo para que eu, em outros tempos e lugares, ficasse receoso e atravessasse a rua, em todo caso. No entanto lá estava eu, dividindo o mesmo gargalo de garrafa e abraçando cada um.

Para a minha surpresa, um deles começou a falar em português. Uma dicção bastante travada, carregada de sotaque e que tropeçava um pouco na conjugação verbal. Dissera-me ele que um dia vivera no Brasil, onde foi casado e deixou um filho, que ele calculava que estaria com 18 anos à época. Se não me falha a memória sobre a história do homem, foi em uma visita por aqui que acabou conhecendo a tal parceira, em Paraty, onde viveram por alguns anos. A aparência desleixada, algumas tatuagens visíveis nas mãos e outra até mesmo na cara transformavam aquela história ainda mais fascinante.

Tu as déjà regardé à l’extérieur?”, perguntou-me, subitamente mudando para o idioma francês, se eu já havia olhado a vista, apontando para a porta de uma sacada. Fiz que não com a cabeça e o segui. Pisando para fora do prédio vi aquilo que guardo na memória como a imagem mais bonita que tive da cidade de Marseille. A vista dava para a Basilique Notre-Dame de la Garde, igreja construída no alto do morro que havíamos visitado durante o dia. Contrastando com a igreja estava uma lua cheia de cair o queixo, iluminando toda a cidade enquanto refletia também em uma parte visível do mar. Contemplei aquela vista por tanto tempo que nem me recordo. No prédio à nossa frente, que ficava na lateral de onde estávamos, havia uma frase pixada.

“Feed the pigeons”.

“Qual é a dessa frase?”, perguntei. A resposta: “Essa frase é de um dos artistas que moram aqui com a gente. O significado oculto dela é ‘Fuck the Police’, e ele a picha em vários pontos da cidade”. Antes que ele me explicasse o significado, eu já havido pensado algumas possíveis teorias na minha cabeça do que poderia significar aquela frase, “alimente os pombos”, no contexto daquela cidade e daquele local.

Marseille é, sem dúvidas, a cidade mais suja que já visitei. Se por um lado a região do Vieux Port apresenta uma beleza natural exuberante, desde a costa até os calanques pelos quais adentra o Mar Mediterrâneo, a parte mais central da cidade chega a ser asquerosa para quem se perde por suas ruas. Repletas de dejetos espalhados pelas sarjetas, é desesperadoramente comum ver as pessoas atirando lixo no chão sem o menor pudor. O resultado disso é que muitos animais como gaivotas, pombos e até mesmo ratos circulam normalmente entre os entulhos em busca de alimento, de qualquer fonte de energia para sustentar alguma vitalidade daqueles que não têm um vô para distribuir amendoim.

Ali, onde o lixo dos abastados alimentava a esperança dos desfavorecidos, me lembrei das tantas vezes em que encarei o pombo sem perceber. Aos 5, aos 24 e até hoje em suas tantas diferentes formas. Entre a empatia e o desprezo, simpatizando ou ignorando, tornei-me mais consciente do que antes do privilégio que é simplesmente nascer em ninho e plumagem adequados, sem ninguém sendo ensinado a não gostar de você.

E que culpa tem o pombo de ser pombo?

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