O monge e o metaleiro

Era uma segunda-feira e, ao contrário do que mandaria o senso popular, eu acordei bem disposto. A caminho do trabalho, liguei o som do carro bem alto. O heavy metal que rolava no estéreo era meio que um detox das 48h ininterruptas de sertanejo durante o final de semana. Foi despedida de solteiro do Bruno, um dos meus melhores amigos de infância e o primeiro da turma a se casar. Fomos a um rancho no meio do nada, a uns 500km da capital, onde ficamos em um bando de homens enchendo a cara de cerveja, fazendo churrasco e falando merda. Tinham strippers também, mas essa parte é segredo.

O primeiro semáforo em que parei foi no da esquina da Henrique Schaumman com a Teodoro Sampaio, onde um jovem semi-careca de túnica laranja, depois de uma tentativa malsucedida no carro ao lado, dirigiu-se ao meu. O menino parece um tipo de monge, mas eu sei que na verdade é algo meio Hare Krishna, porque do outro lado do semáforo, na volta, eu sempre converso com um outro, mais velho, que às vezes me dá incenso e sempre me convida para conhecer a loja de livros espirituais deles que fica na Pacaembu.

O menino veio, meio que tímido, sem saber se deveria interromper aquele meu momento de música alta, se aquilo era uma versão automobilística dos headphones como modo de isolamento social. No entanto ele foi chegando manso, se esgueirou na janela entreaberta e disse a última coisa que eu esperaria que ele dissesse:
– For Whom The Bell Tolls?
– Isso!
– Caaaaara, esse som é foda, hein!
– Né? Mas, nossa, achei que vocês fossem do tipo de pessoa que preza pelo silêncio interior, pela paz espiritual, essas coisas… não?
– Ah, sim. Mas Metallica é Metallica, né?

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