Azul é o som mais quente

Nesta semana, Elmore James foi o primeiro a estourar nos headphones logo que apertei o play do meu iPod, na lista de blues. Uma playlist orgulhosa, digamos: conta com mais de 800 músicas e não para de crescer. Não é como se eu tivesse um fonógrafo e uma coleção de discos raríssimos. É uma versão modernizada, digital, bem menos digna, mas que cumpre com o seu propósito de me acompanhar para todos os lados, a pé ou no carro, além de me dar a oportunidade ter disponíveis comigo tantas masterpieces pelas quais meu bolso não poderia pagar.

O blues é um estilo musical que me fascina há anos, e o qual eu sinto que nunca tenho o bastante. Quanto mais eu descubro sobre, mais coisas novas eu quero descobrir. Apesar de eu me considerar uma pessoa muito eclética, blues e hip hop são os dois estilos musicais pelos quais eu possuo um afeto especial, proveniente de uma curiosidade intelectual sobre suas origens, sua história e suas influências. Dois estilos originários do talento e sofrimento do povo negro que encantam o branquelo, classe média, descendente de imigrantes europeus aqui.

A morte de B.B. King na última semana, inevitavelmente, colocou um pouco mais de combustível neste meu fogo pelo blues. E não foi apenas comigo. De acordo com a Forbes, o número de plays nas músicas do velho Riley no Spotify aumentou quase 10.000% desde a sua morte. Embora eu desejasse que a maioria destes plays fosse em tom de homenagem, imagina-se que sejam mais de curiosidade, dado o público jovem predominante na plataforma. É de fato um sacrilégio que uma das maiores lendas do blues tenha de ter falecido para que alguns o conheçam, mas é assim que funciona: morrer continua sendo o melhor marketing para os artistas.

Ainda sobre a morte do blues boy da Beale Street: ela não me entristeceu, necessariamente. B.B. King fez além do que poderia em sua carreira, e nos deixa um legado que jamais morrerá. No alto de seus 89 anos, ainda fazia shows e aposentar-se nunca lhe passou pela cabeça. O cantor, que já chegou a se apresentar nos 365 dias do ano, certa vez disse: “Quando eu começar a tocar tão mal quanto eu acho que tocarei numa certa idade, espero que uma campainha toque em minha cabeça, dizendo: ‘Hora de parar’. Mas, caso contrário, vou esperar o Ser Maior lá de cima me levar”[1]. A hora de parar nunca chegou, e B.B. King continuou encantando audiências até o dia 14 de maio de 2015.

Riley não era uma exceção no que diz respeito às suas origens no blues. Nascido em Indianola, no Mississipi, B.B. King passava o dia trabalhando na lavoura de algodão, e era no meio do mato que dedilhava sua guitarra. Tocar o blues em casa não era permitido, pois não era uma música cristã. Nesta época, no Sul dos Estados Unidos, a influência religiosa era extremamente forte e primitiva. Ou se era um sujeito religioso, de “bem”, que seguia uma vida regrada, ou se era uma pessoa “má”, de comportamento boêmio, a rondar pelas noites bebendo whisky e dançando o blues, essa música diabólica.

Havia até mesmo um mito bastante difundido na época sobre o diabo na encruzilhada. Robert Johnson escreveu sobre ele em sua música “Crossroads”. Dizia-se que, para aprender a tocar, deveria-se procurar por um lugar onde houvesse uma encruzilhada. Deveria-se chegar lá pouco antes da meia-noite e ficar sentado com seu violão. Um “grande homem negro” iria caminhar até lá, afinar o violão, tocar uma música e devolvê-lo. Desta forma, aprenderia-se a tocar qualquer coisa[2].

Robert Johnson by R. Crumb
Robert Johnson by R. Crumb

Hoje, com a internet, é possível ter acesso fácil a tantas raridades musicais do blues negro antigo. Algumas décadas atrás, o processo era um pouco mais trabalhoso. O renomado ilustrador Robert Crumb, responsável pelas capas históricas de tantos discos de blues, conta que nos anos 70 colecionadores brancos (nos quais ele próprio se inclui) saíam batendo nas portas das casas velhas de famílias negras, em busca de velhos discos de blues abandonados. Muitas vezes acabavam encontrando vinis em péssimo estado de conservação, mas que ainda assim eram audíveis. Pagava-se muito pouco por eles, dado seu estado e o pouco caso dos proprietários, e não se conhecia os nomes dos artistas. Era levar o disco, ouvir e descobrir que tipo de talento estava escondido naquelas 78 rotações. É graças ao trabalho destes colecionadores que muitos artistas de blues como Charley Patton não foram perdidos ao longo do tempo.

Tomando o próprio Patton como exemplo, em muitas de suas canções é difícil distinguir o que ele está cantando. Sabe-se que ele era um vagabundo, que vivia do ócio e era sustentado por suas mulheres, as quais ele frequentemente abandonava. Suas músicas falam principalmente sobre fugir, ir embora para outro lugar. Mas independentemente de suas letras, o blues é muito mais sobre sentir o que o artista sente quando o toca. Há mesmo quem diga que é possível escutar B.B. King só de olhar para ele e a maneira como trata sua Lucille. A guitarra leva este nome por conta de uma briga em um bar que resultou em um incêndio. B.B. King arriscou sua vida entrando no prédio em chamas para salvá-la, e depois descobriu que os causadores do incêndio brigavam por conta de uma mulher. Seu nome? Lucille.

B.B. King sobreviveu como um artista que colocava em suas composições a expressão pura de seus sentimentos, algo que vai na contramão da maneira como é feita a música hoje em dia. A relação que temos com ela hoje é muito mais comercial, feita para ser consumida por nós na aquisição das mesmas em álbuns, direitos autorais, publicidade, merchandising e produções de qualquer outro tipo. A indústria gira em torno de seus interesses e muito da qualidade se perde. Valoriza-se superproduções e o espetáculo criado em torno de um artista e de seu show. Com isso foi-se criando ondas atrás de ondas que sobrepõem as obras musicais antigas, colocando-as no esquecimento, a exemplo do que muito foi feito com o blues negro.

Certa vez fiz uma reunião com o Maestro João Maurício Galindo, regente titular da Orquestra Jazz Sinfônica do Estado de São Paulo. O que deveria ser um briefing acabou se tornando uma aula, estando eu fascinado e tomando nota de tudo aquilo que ele falava. Nesta conversa falou-se sobre a mesma questão histórica da sociologia da música, algo que também é comentado de modo muito rabugento por Robert Crumb.

Antigamente, quando os homens ainda viviam em cavernas, a única maneira da música existir era sendo propriamente feita. Batia-se nos objetos e soltava-se o gogó. Os tempos passaram, a sociedade evoluiu, e com o progresso as coisas foram ficando mais sofisticadas. À época, gênios da música, como Mozart, faziam parte da criadagem de reis, rainhas, duques e imperadores. A gravação sonora ainda não era uma realidade, então os artistas tinham como função tocar em jantares ou quaisquer outros eventos nos quais a nobreza planejava suas batalhas ou suas investidas românticas. Esta música possuía, via de regra, um caráter bastante inovador, afinal, uma mesma música nunca era tocada duas vezes, e os nobres exigiam coisas novas para ouvir a todo momento. Junto a este caráter de constante virgindade musical, também evidenciava-se um comportamento sutil no ritmo e no tom das composições. Mozart possui uma obra muito mais “comportada”, feita para tocar em jantares em ambientes fechados, enquanto Beethoven, por outro lado, tem sua música muito mais ligada aos ideais da Revolução Francesa, feita para ser tocada em ambientes externos, para o povo e para todos.

De qualquer maneira a música europeia era extremamente controlada, e não poderia receber nenhum tipo de influência árabe ou oriental. No entanto, ao chegar na América, essa pluralidade de referências passou a fazer parte do processo, para nossa sorte. A partir desta rica miscelânea de estilos surgiram maravilhas como o jazz e o blues de nosso querido B.B. King.

Riley conseguiu, ao longo de sua obra, unir o melhor da nossa percepção de emoções através da música, transmitindo de seu encontro com a guitarra os sentimentos e sofrimentos de um negro nascido em plena época de segregação racial nos Estados Unidos. Cada movimento de seus dedos sobre as cordas nos presenteia com notas de dor ou de alegria, e isso não se perde em nenhum de seus registros fonográficos que hoje temos, felizmente, à nossa disposição. O blues boy, que muito sofreu de preconceito, certa vez brigou com seu motorista por ter dirigido ao local errado do show. “Só tem brancos nesta fila!”.

O local não estava errado, e B.B. King terminou o show aplaudido de pé. E assim sempre será, por todos nós, everyday we have the blues.

Descanse em paz, velho Riley.

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[1] Extraído do documentário “The Life of Riley”, de Jon Brewer, 2012.

[2] Todas estas histórias são contadas por obras de Robert Crumb, reunidas no livro “Robert Crumb draws the blues”.

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