Um backup de mim mesmo

Eu tenho medo de perder o timing dos meus pensamentos. Por isso resolvi anotar tudo que penso. É o que vou fazer. Eu quero produzir mais. Escrever mais. E de repente eu me pego pensando o que me impede de ser essa pessoa que consegue transformar em palavras toda a imensidão que é se perder dentro de mim mesmo. A todo momento, andando pelas ruas, no transporte público, antes de dormir, pensando nela, pensando na família, no que quer que seja, milhares de ideias (algumas muito boas) vêm à minha cabeça. Eu cansei de perder essas ideias.
Hoje me dei conta de algo terrível: quantas ideias eu já deixei escapar? Quero dizer, as vezes eu encontro um bilhete, uma carta antiga, um e-mail que enviei e pergunto: “Quem era essa pessoa que enviou? Era eu?”. É assustador pensar que nós perdemos o registro da nossa própria evolução. Nós evoluímos constantemente e de um modo tão avassalador que esquecemos de quem éramos antes. Somos um constante sistema de atualização que apaga todos os registros anteriores, sem backup. É como se dentro de cada um de nós existisse um Ministério da Verdade, conforme no romance 1984 de George Orwell, que apaga todos os registros de quem fomos para dar lugar ao novo e, nesse novo, não haver mais dúvidas de quem somos.
É preciso escrever mais. E, para isso, é preciso desconectar. Somos um texto. Conectado aos outros, passamos a involuntariamente moldar o que queremos ser para agradá-los. E com isso mudamos o nosso texto. Nesse processo constante de revisão, criamos uma autocrítica muito forte e não nos publicamos. E assim, não escrevemos. Eu deixo de escrever quem sou enquanto estudo quem vai me ler. É preciso desconectar. É preciso deixar as palavras fluírem. É preciso viver como se não houvesse leitor.
Por isso resolvi dar este mergulho em mim. Aquela sensação que temos quando entramos embaixo d’água, e o barulho do mundo some? O silêncio da submersão. É o que eu preciso fazer para me conhecer melhor. Conhecer mais a mim. Aprofundar em mim, e não nos outros. Eu já não sou lá uma pessoa muito apegada a conhecer pessoas muito profundamente. Na realidade, eu consigo ser muito simpático, mas até um certo nível de intimidade. Pessoas nas quais eu mergulho, profundamente, são poucas. E não é uma escolha. É como se cada pessoa fosse um tipo de piscina. Algumas você precisa mergulhar. Outras você só olha pra água, sente a temperatura do vento, pensa que vai ficar molhado depois e… “bá, deixa pra lá”.
Por isso resolvi me escrever. E escrever não é descrever. Eu quero ter registro de quem sou, de quem fui, a todo tempo. É impressionante como, sim, eu me pego com os mesmo pensamentos que tinha quando era um pós-moleque. Mas e a abordagem que faço desses pensamentos? E o resto de mim? O que não era esse pensamento era preenchido com um outro ser, que eu nem lembro mais quem era. Quem eu fui 6 anos atrás?

Por isso é de uma dificuldade inútil tentar responder “quem sou eu” quando alguém me pergunta. Não é questão de não saber como responder. Eu realmente NÃO SEI. No futuro eu vou entender menos ainda quem eu era nessa época chamada presente, mas agora mesmo eu já me esqueço o tempo todo de quem eu sou. O tempo todo. Eu me esqueço. De quem eu sou. De quem eu faço. O que eu faço? O que eu fiz? Por que eu fiz isso? Isso o quê? Nem lembro. Do que a gente tava falando?

 

 

* originalmente escrito em 7 de dezembro de 2012

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