Até que sim

Eu me lembro dela na primeira noite do inverno. Era um moletom brega o que eu usava, mas o material interno era fofinho e ela não tinha casaco nenhum. Eu me lembro de acompanhá-la até a frente do prédio central, onde o frio da noite que se aprofundava criava a perfeita desculpa para que eu me livrasse do moletom feio para colocá-lo sobre ela, assim, bem juntinho a mim. Eu me lembro de que ali começou um abraço que eu não queria mais que terminasse, e acho que ela também não. Assim ficamos por mais de 30 minutos até que ela finalmente resolvesse me beijar. Eu me lembro dela desde então.

Eu me lembro dela nas primeiras visitas em casa. Éramos dois estudantes com obrigações que não iam além dos horários das aulas. As tardes eram livres e a cidade era nossa, mas não havia lugar melhor que aquele universo particular. As poucas técnicas culinárias que eu tinha eram suficientes para lhe prometer um almoço e, não sei se por amor ou por sabor, o resultado agradava. E tudo terminava com nós dois deitados na cama, falando sobre todo e qualquer assunto. Um beijo, um aperto, uma roupa querendo sair. Eu me lembro de esperar ela estar pronta, e do dia em que minha mão invadiu suas calças pela primeira vez no banco do passageiro do carro que eu mal havia estacionado na garagem do meu prédio.

Eu me lembro dela em nossa primeira cena de ciúme, quando o telefone ainda não era tão esperto e uma simples mensagem que eu não deveria ter lido fora suficiente para me tirar do lugar da razão. Eu me lembro de entrar em paranóia e de começar a culpá-la muito além do merecido. Eu me lembro de que foi assim que a insegurança me contaminou tão forte pela primeira vez na vida.

Eu me lembro dela nua em cima de mim, daquele abraço suado em que eu deixei escapar pela primeira vez “eu te amo”. Eu me lembro dela não respondendo de volta, apenas me abraçando apertado, abrindo um sorriso largo e zombando de mim: “você me ama!”.

Eu me lembro dela em minhas próprias palavras, dos e-mails que eu mandava espontaneamente só porque eu ficava inspirado demais pensando nela ao longo do dia. Eu me lembro dos desenhos, dos poemas, das mensagens e de tudo mais que eu enviava por não conseguir esperar até a hora de vê-la. Eu me lembro de que o tempo com ela nunca parecia o suficiente, e de como isso me fez querer participar de tudo que era parte da vida dela. Eu me lembro de começar um novo esporte só para termos uma paixão a mais em comum, e de treinar forte toda semana para que ela me admirasse nele tanto quanto eu admirava ela.

Eu me lembro de nós dois dividindo um baseado, até que a conversa ficou interessante demais, ligamos o som e ficamos aos beijos. Eu me lembro de nós dois chapados transando ao som de Led Zeppelin, determinando, ao fim, que aquela só poderia ser a melhor trilha sonora para o sexo que já existiu.

Eu me lembro dela quando me contava que a menstruação desceu. Duas crianças estúpidas orgulhosas por enganar a natureza reprodutiva ao fim de cada mês de prazer, da tradição de comemorar o “não-dia-dos-pais” até que as roupas fossem parar no chão mais uma vez.

Eu me lembro dela com medo num triste episódio em que eu estava bêbado e furioso demais após um momento de frustração. Eu me lembro de assustá-la quando dei um chute no armário, quando levantei a voz, quando perdi o controle. Eu me lembro dela saindo chorando através da porta, de eu correndo atrás dela, escorregando e me espatifando no chão da sala completamente embriagado, para só depois me levantar e alcançá-la já no andar de baixo. Eu me lembro de implorar para ela ficar e me perdoar. Eu me lembro de ficar assustado comigo mesmo, e de prometer a mim e a ela que aquilo nunca mais iria acontecer. Eu me lembro de cumprir a promessa.

Eu me lembro dela chorando no aeroporto enquanto eu partia para viver em outro país. Eu me lembro de cada palavra que escrevi num caderninho com a maior honestidade que havia em meu coração, ao qual eu dediquei toda a madrugada da véspera para passar por escrito tudo que eu sentia e desejava a ela. De tudo que eu queria dizer para ela. De tudo que me traria a falta dela. De toda ela. Eu me lembro dela dizendo que me amava, e que tudo que eu havia escrito era o que ela mais queria ouvir em todo aquele tempo.

Eu me lembro dela em cada uma das noites em que não dormi pensando em nós dois. Da primeira vez em que eu dormiria com outra, mas, sem conseguir, apenas deitei ao lado esperando aquela noite estranha acabar. Eu me lembro de levantar e acessar o computador alheio para escrever um e-mail para ela, falando da tamanha falta que ela fazia. Eu me lembro de todas as viagens que eu fiz apenas sonhando com ela ali, junto de mim, de levar um pedacinho dela em cada lugar que fui. Eu me lembro de invejar os amigos que namoravam à distância, de me arrepender por não termos ao menos tentado. Eu me lembro de invadir a sua privacidade, das brigas online, das indas e vindas, do absurdo e do caos. Eu me lembro de achar que estava tudo acabado incontáveis vezes.

Eu me lembro dela abrindo a porta do carro e pulando em cima de mim, apertando cada parte do meu corpo para comprovar que eu estava realmente de volta. Eu me lembro de nós dois em paz, nem que fosse por um pequeno espaço de tempo. Eu me lembro da saudade falar mais alto do que qualquer razão, de beijá-la na boca, de descer do carro, dela elogiando meus novos tênis que combinavam com meu novo jeito de me vestir. Eu me lembro de rever sua mãe, sua irmã, de conhecer seu novo cachorrinho e de sentir que nada havia mudado. Eu me lembro de concordarmos em deixar a discussão para depois, de rumarmos para um motel e consumar saudades e desejos tão acumulados. Eu me lembro de me preparar para pagar o pernoite com o pouquíssimo dinheiro que eu tinha, e de que ele só foi salvo porque um funcionário terceirizado sem aviso quase entrou pela porta do nosso quarto, resultando em uma reclamação revoltante e uma diária gratuita.

Eu me lembro dela e dos meses de confusão mental, do querer e não querer, da certeza e da incerteza sobre o amor ainda estar ali, escondido, machucado, maquiado em meio a um turbilhão de lembranças tão boas e tão ruins. Eu me lembro das tantas vezes que tentei fugir do sentimento que brigava com meu próprio orgulho, do esgotamento e do fatídico dia em que eu enfim a bloqueei em todos os meios de contato. Eu me lembro das mensagens dela puxando assunto tão logo eu sumira, e da imensa dificuldade que foi manter a frieza enquanto meu coração implorava por ela de volta.

Eu me lembro do tempo que se arrastou doloroso.

Eu me lembro dela marcada em uma foto com o novo namorado. Eu me lembro de que era final de ano, de que eu viajava num país vizinho. Eu me lembro de cada pixel daquela merda de foto dela com um novo amor. Eu me lembro de páginas e mais páginas de texto rascunhados pela simples necessidade de desengasgar ela de mim, inaugurando um estado de bloqueio que agora iria para além da nossa comunicação, e que, por um bom tempo, proibiria também qualquer futura vulnerabilidade minha em sentir algo tão real por alguém novamente.

Eu me lembro dela e do desbloqueio indo embora quando ela me mandou um recado, bem no dia em que eu perdia um dos meus melhores amigos. Eu me lembro de repensar a vida e o que esperava dela, chegando à conclusão de que não queria perder mais nenhuma fração de segundo que eu poderia ter ao lado de quem era realmente importante na minha vida. Eu me lembro de perdoá-la internamente pela primeira vez, e de entender meus erros para também pedir perdão a ela por todos eles. Eu me lembro de reencontrá-la, e de acreditar, pela primeira vez, que uma amizade entre eu e ela poderia dar certo. Eu me lembro de contar a ela a preocupação que minha família tinha porque eu, mesmo após mais de quatro anos, nunca mais tinha conseguido me apaixonar por ninguém. E eu me lembro de questionar todos os dias, desde então, se é ela quem eu ainda quero apesar de negar.

Eu me lembro de um dia desses quando alguém perguntou se eu ainda me lembrava dela. Um relâmpago imediatamente atingiu minha memória com milhares e milhares de lembranças, travando em meu rosto um conflito entre o sorriso e a angústia, e de que eu só pude responder em poucas e curtas palavras:

“Ah… até que sim”.

 

 

 

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