Cervejaria Cathedral: movida pela fé (na qualidade)

Éramos 4 na única sala com ar-condicionado. Uma quinta-feira quente de março em Várzea Paulista, a 50km da capital, logo após o almoço. Ao lado, uma pequena cozinha na qual havia uma máquina de café espresso, dessas de cápsula. 1, 2, 3, 4 cafés. “A gente tá acabando com o café dos caras”. Cada xícara ia sendo devidamente colocada ao lado de um laptop sobre a mesa. Cada proprietário em seu devido computador, concentrado no que estava fazendo.

Os outros três eram Daniel Chaves, Guilherme Palu e Marcelo Baptistella, os jovens sócios fundadores da Cervejaria Cathedral, em Maringá, no Paraná. O local, uma cervejaria paulista que aceitara fazer a primeira industrialização da marca em São Paulo. Chaves respondia a e-mails de fornecedores. Palu emitia notas fiscais e boletos. Marcelo conferia a movimentação bancária na conta da empresa.

“Você pode começar quando quiser, ok?”. Ok, mas dava dó de interromper. Pela primeira vez os três sócios não precisavam, além de toda a parte administrativa, cuidar também da produção. O ritmo de trabalho habitual, cuja jornada diária leva ao menos 12 horas, vai desde passar rodo no chão até o planejamento tributário. O fato de cuidarem tanto das atividades estratégicas quanto da limpeza e manutenção virou até brincadeira no cartão de visitas: “Faxineiro-proprietário”, diz o cargo.

Hoje melhores amigos, os três sócios se conheceram no segundo ano de faculdade, em 2009, na Atlética de Engenharia da UEM (Universidade Estadual de Maringá). Marcelo fundou a entidade, à qual se juntaram Chaves e Palu. Foi ali onde, além da amizade, nasceu a química do trio para fazerem as coisas acontecerem. Fizeram festas, fundaram o Engenharíadas Paranaense e, em meio a tantos projetos, Marcelo virou um frequentador assíduo da “República do Congo”, onde viria a morar posteriormente com os outros dois.

Primeiro Engenharíadas Paranaense.
Primeiro Engenharíadas Paranaense.

“Tudo que a gente botava na cabeça para fazer, desde a decoração de uma festa, a organização de um evento ou de uma viagem, tudo que a gente tinha vontade de realizar nós fazíamos juntos e a amizade foi crescendo”, conta Marcelo. “E tudo que fazíamos juntos dava muito certo. Acho que não só por conta da nossa união, mas também porque sempre fomos muito críticos na qualidade de tudo que fazíamos. Sempre buscamos fazer algo diferente, fora do comum, e sempre seguimos a ideia de que se você quer uma coisa bem feita, do jeito que você gosta, deve fazer você mesmo”, completa Chaves.

 

O EMPREENDIMENTO

A semente de um empreendimento foi plantada em uma viagem de bicicleta que ia de Salvador a Fortaleza. “Em meio a tantos perrengues, vimos que conseguíamos conviver e superar muita coisa juntos. Foi ali que percebemos que nos daríamos bem como sócios, só não sabíamos ainda exatamente em quê. Tudo que sabíamos é que não queríamos que cada um seguisse a carreira padrão dos nossos colegas de classe: arrumar um emprego em uma grande empresa ou indústria, mudar de cidade e perder o contato. Nós queríamos criar nosso próprio negócio para que cada um não fosse para um lado”, diz Palu.

Foto da chegada em Pernambuco, durante viagem de bicicleta entre Salvador e Fortaleza.
Foto da chegada em Pernambuco, durante viagem de bicicleta entre Salvador e Fortaleza.

 

“Não queríamos que a carreira de engenharia nos separasse. O Marcelo iria acabar na Bahia, o Palu no Mato Grosso e eu em outro lugar. Maringá é uma cidade com muita qualidade de vida, em crescimento, e da qual gostamos muito. Para que pudéssemos continuar por lá, teríamos de empreender. E isso já não era uma opção, era um fato. Não queríamos fazer carreira em uma empresa, fazendo algo que não gostássemos. Não queríamos trabalhar para realizar o sonho de outros”. 

 

A CERVEJARIA

A ideia de criar a cervejaria veio da vontade de trabalhar de forma independente com algo desafiador e, ao mesmo tempo, divertido. “Ao final do curso de engenharia química, tínhamos de desenvolver o projeto de uma fábrica do começo ao fim. Matérias chatas, monotonia, então pensamos: “já que vamos ter de fazer um TCC, vamos fazer de alguma coisa legal’”. Chaves conta que nos primeiros anos do curso a ideia era criar um projeto de cachaçaria. “O tempo foi passando e percebemos que 5 anos depois o recém-nascido mercado brasileiro de cervejas artesanais estava aquecido, com espirito jovial e com muito espaço para criatividade e inovação. A cana cedeu então o seu lugar para a cevada.”

O primeiro passo para idealizar o projeto era começar a fazer cerveja. Chaves convenceu o pai a comprar um kit de fazer cerveja em casa e começou a estudar bastante. “Mas ele nunca fez uma cerveja do gosto do pai dele!”, adenda Palu, entre risadas. “Passei as férias inteiras estudando muito, até que um dia eu e meu pai conseguimos fazer nossa primeira cerveja. Deu para ver que a coisa fluiu, não era um bicho de 7 cabeças e me despertou um tesão enorme em fazer aquilo”, conta Chaves. “Foi uma sensação mista de ‘a água batendo na bunda’, eu precisando tomar um rumo na minha vida e a vontade de fazermos algo nosso. Começamos a conversar sobre a ideia. Queríamos, mas não sabíamos como abrir uma cervejaria. Eu e Palu fizemos juntos o projeto sabendo que aquela tinha de ser a hora: aproveitar o projeto do TCC para fazer algo bem feito e ser aproveitado. O semestre foi passando, o projeto foi se desenvolvendo. Nesse meio tempo o Marcelo começou a participar, ia lá fazer cerveja com a gente. Até que chegou o final do semestre e apresentamos o projeto. Fizemos a escolha: é isso”.

O projeto universitário virou projeto de vida. Os três começaram a investir na ideia, criando layout, material, local, nome, marca, levantando recursos etc. “Precisávamos de investidores, então montamos uma apresentação de todo o projeto e cada um teve sua conversa particular com seus pais”.

Marcelo Baptistella, Guilherme Palu e Daniel Chaves: os três sócios da Cervejaria Cathedral.
Marcelo Baptistella, Guilherme Palu e Daniel Chaves: os três sócios da Cervejaria Cathedral.

 

OS PAIS

Não é nenhuma vergonha, pelo contrário, é com grande orgulho que os sócios contam que nada do projeto seria possível se não fosse por seus pais. Além do investimento financeiro, os pais ajudaram em muitos outros casos para colocar a cervejaria em pé. O pai de Palu trabalhou como mão de obra na reforma do barracão da fábrica, por exemplo, enquanto o pai de Chaves ajudou com sua experiência na indústria química.

Reforma do barracão que viria dar lugar à Cervejaria em Maringá.
Reforma do barracão que viria dar lugar à Cervejaria em Maringá.

“Se não fossem nossos pais, nada disso seria possível. Devemos muito a eles”, diz Chaves. As famílias ainda são muito presentes no desenvolvimento do negócio. Com pouco mais de um ano em funcionamento, todo o retorno financeiro gerado pela cervejaria é reinvestido para o aumento de produção e distribuição em novos mercados.

 

A CERVEJA

A casa onde vivem juntos os proprietários conta com uma decoração que é a herança dos tempos universitários. Enquanto uma parede é recoberta por discos de vinis, com capas que vão desde Beatles e Johnny Cash, passando por Bob Marley até Pink Floyd, outra é feita de prateleiras onde estão dispostas dezenas de garrafas de cerveja. “Começaram a aparecer várias cervejas diferentes no mercado e começamos a querer experimentar.” A experimentação acabou virando decoração, um portfólio cervejeiro exposto na parede da sala, e que posteriormente se tornou inspiração para o início do negócio.

A relação de amor com a cerveja tem bastante a ver com a descoberta de algo novo. O que antes eles encontravam na cachaça, experimentando diferentes tipos provenientes de diversas regiões do Brasil, começou a se mostrar também possível com a ascensão de centenas de microcervejarias no Brasil e no mundo.

“Tem muito a ver com essa nova realidade do mercado cervejeiro no Brasil. Antigamente não existia essa possibilidade de entrar com algo novo, pois ele era totalmente dominado pelas grandes indústrias (e ainda é). Mas, a partir do momento em que começaram a aparecer novas cervejas artesanais, os micro produtores começaram a encontrar o seu espaço, iniciando um movimento como outrora acontecera com a cachaça”, diz Chaves.

“E como nós sempre tivemos essa coisa de fazer do nosso jeito, resolvemos colocar em nossas receitas aquilo que gostaríamos de encontrar naquela que seria a cerveja ideal para nós”, completa Marcelo. Foi dessa busca pelo sabor ideal que surgiram as cervejas Cathedral. 

 

A CERVEJA CATHEDRAL

Nem artesanal, nem especial, muito menos gourmet. A cerveja Cathedral não é acompanhada de nenhuma dessas definições, de acordo com seus fundadores. “É cerveja. Ponto. Você não pode “enfrescurar” uma cerveja só porque ela possui um sabor diferente. Chamam de ‘gourmet’ porque é mais cara, e é mais cara porque há um real custo em sua composição”, afirma Palu.

O cuidado com o sabor e a qualidade são prioridade para os cervejeiros que, independentemente da classificação que recebam, possuem um posicionamento bem claro em relação ao seu produto: “Nunca quisemos fazer uma cerveja que passasse despercebida. Ou que fosse de fácil aceitação. Queríamos cervejas com mais personalidade, fosse por um sabor mais forte, ou amargor, ou nível alcóolico. Queríamos que as pessoas que as tomassem lembrassem daquele gosto. Assim, nossas cervejas não foram feitas para agradar a todos: foram feitas para serem escolhidas.”

Foi assim que criaram as primeiras 4 receitas, a série das Escolas Cervejeiras, sendo uma totalmente distinta da outra: Helles Bock, da escola alemã (que posteriormente viria a ser premiada com a medalha de bronze no Festival Brasileiro da Cerveja 2015, em Blumenau-SC); Belgian Blond, da escola belga; IPA, da escola americana; e Stout, da escola inglesa. “Cada cerveja que criamos possui um porquê, um motivo de ela ter sido criada, uma ideia ou uma história por trás”, diz Palu.

A Cathedral busca um público entusiasta por cerveja, que queira experimentar coisas novas e que busque qualidade acima do preço. “Jamais faríamos uma receita de menor qualidade apenas para baratear o nosso produto. A qualidade é muito foco para nós. Sempre tomamos nossas próprias receitas e pensamos: ‘Eu compraria essa cerveja? Eu pagaria 20 reais por uma garrafa dela?’”.

Além dos 4 rótulos iniciais, a cervejaria lança ainda em agosto dois novos rótulos: Armagedom, uma Imperial IPA, e Apocalipse, uma Imperial Stout que antes de estar no mercado já acumula duas medalhas: prata no Festival Brasileiro da Cerveja 2015 (Blumenau, SC) e ouro na South Beer Cup (Buenos Aires, Argentina) do mesmo ano.

Armagedom

Apocalipse_Rótulo2

Até o momento, o foco no sabor tem apresentado resultados positivos, trazendo o devido reconhecimento. “Sabemos que uma pessoa mais econômica não irá comprar nossa cerveja, pois vai achar um desperdício pagar mais de 20 reais em uma garrafa. O desconhecimento faz muitas pessoas não comprarem, por isso é preciso educar as pessoas para experimentarem e conhecerem novas cervejas. E esse é o nosso maior propósito: convidar as pessoas a explorar o universo cervejeiro”, diz Chaves. “Queremos que as pessoas não bebam apenas a nossa cerveja, mas que passem a fazer parte desta revolução: descobrir que cerveja pode ser muito mais do que estupidamente gelada. E se alguém entra nessa porque experimentou uma Cathedral, nosso propósito está cumprido”, completa Marcelo.

 

MARINGÁ E A FÉ

Maringá é uma cidade média-grande que se destaca pela sua qualidade de vida. É considerada a segunda cidade mais segura do Brasil, além de uma das mais arborizadas e limpas. Seu principal cartão postal e ponto turístico é a Catedral Basílica Menor de Nossa Senhora da Glória, ou, simplesmente, Catedral de Maringá. O projeto, do arquiteto José Augusto Bellucci, é a igreja mais alta da América Latina.

Foto: Arquivo Paraná Turismo
Foto: Arquivo Paraná Turismo

Tamanha importância para a representação da cidade fez com que os empreendedores, que escolheram Maringá como o lugar para se estabelecerem, elegessem Cathedral como o nome da cervejaria. “O ‘h’ é só para dar um charme”, explicam. O formato pontiagudo da construção é representado no logo da empresa que, embora não tenha nenhuma relação com religião, não se priva de aproveitar das referências eclesiásticas para a identidade visual e verbal de seus produtos.

O primeiro exemplo disso são os rótulos da série “Escolas Cervejeiras”. Desenhados pelo talentoso artista Ciro Bicudo, eles apresentam vitrais coloridos em torno de um elemento central que representa cada estilo de cerveja. As novidades Armagedom e Apocalipse também carregam inspiração no fim dos tempos das narrativas bíblicas. A fórmula tem dado certo, e está criando uma “cara” para a cervejaria. Não é, no entanto, uma regra, e outras cervejas mais laicas devem aparecer em breve.

Rótulos Cathedral

“Contamos com a ajuda do povo de Maringá, que percebemos ser muito regionalista e defensor do que é de lá. Em Maringá encontramos a força para seguir adiante”, diz Palu. Embora estivessem longe da cidade naquele momento, os problemas viajam junto e nossa conversa foi interrompida quando Chaves foi conferir a produção e Marcelo foi atender ao telefone. O mesmo Marcelo, que é um grande amigo pessoal meu e estava ao meu lado durante a conversa, espiando meu computador, me disse mais tarde, já com o gravador desligado: “Você esqueceu de perguntar qual é nossa maior ambição. Respondo: é a de que um dia alguém vá conhecer Maringá, chegue lá e pense ‘Caramba! Existe mesmo uma catedral aqui!’”.

Se os cervejeiros contam com uma ajuda divina não é possível saber, mas vontade é o que não falta para os jovens empreendedores que possuem ao menos uma fé: a de que o negócio está dando certo e irá crescer cada vez mais.

Daniel Chaves, Marcelo Baptistella e Guilherme Palu: os três sócios recebendo duas medalhas no Festival Brasileiro da Cerveja 2015.
Os três sócios recebendo duas medalhas no Festival Brasileiro da Cerveja 2015.

 

 

 

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